sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

JAZZ Eles varreram o preconceito com o talento


Quando viajava com sua banda para  uma turnê de shows no sul dos Estados Unidos, Billie Holiday ficou chocada com as cenas que se materializaram diante de seus olhos. Em várias localidades ela percebeu a violência explícita com que eram tratados os negros do sul. Diversos cadáveres de homens e mulheres eram vistos pendurados nas árvores, queimados ou enforcados.
Na década de trinta, Holiday era considerada uma das maiores cantoras de Jazz, gênero musical norte americano que exerceria forte influência na cultura dos Estados Unidos no século 20. As imagens nunca mais se apagaram da mente de Billie , que resolveu compor uma música que viria a se tornar um dos primeiros clamores contra o racismo e o preconceito intrínseco na sociedade  americana. A música: “Estranha  fruta”   em pouco tempo tornou-se conhecida e prestigiada por diversas emissoras de rádio sendo muitas vezes utilizada como refrão nas manifestações que pipocavam principalmente no sul, região onde o racismo era mais radical. A composição  causava um forte impacto, percebia – se na letra todo o sofrimento dos afro americanos: “Àrvores do sul dão fruta estranha ,sangue nas folhas e sangue na raiz .Corpos negros se balançando na brisa do sul, fruta estranha pendurada”. É explicito  na letra da canção o drama dos negros do sul cantado por Billie  que se pautava no cotidiano  e na trajetória  daquele grupo de pessoas oriundas da África,  dos séculos 17 a fins do 18.
Billie Holiday na sua curta carreira que se findou aos 44 anos  em 1959 sentiu na pele o preconceito e o desprezo por ser mulher e negra condição desprezível para a sociedade daquelas primeiras décadas do século 20. Holiday buscou  refúgio nos tóxicos,  em uma época que o dependente e o traficante estavam na mesma escala  de delito para a polícia. Diversas vezes foi  presa e atravessou inúmeras crises que de certa forma abreviaram sua vida . Foi apenas o Jazz  que proporcionou momentos de realização na vida da “ The Lady Day” como era conhecida. Escreveram que se Billie tivesse  se mudado para a Europa teria vivido muito mais pois os artistas desse gênero musical são muito reverenciados naquele continente.
A origem histórica   do conflito racial em que Billie Holiday se opôs teve início na América do Norte no século 17 quando os negros oriundos do continente africano eram  transportados de forma precária até a América  fomentando um comércio lucrativo para os traficantes de escravos já que eram  mercadorias importantes, pois as grandes propriedades do sul movidas pela monocultura do algodão eram geridas pela mão de obra barata que era o escravo. Os  lucros dos grandes latifundiários eram estratosféricos e a principal forma de manter o negro submisso e extrair dele a força física  na lavoura era  destituí-lo de toda a sua humanidade. Sem referências culturais, lingüísticas ou étnicas a escravidão se consolidava facilmente.
Mas  o negro distante de sua terra  e de suas famílias  encontraram nos rítimos e sons  uma forma de união e comunicação muito próprias, que lhes permitia escapar ao controle dos seus algozes. Nessa forma de manifestação percebe-se a origem do “blue” a dor e o sofrimento da escravidão transformado em canção.
Esses cantos em pouco tempo passaram das lavouras de algodão para os templos estabelecendo-se em igrejas negras segregadas das comunidades sulistas brancas os “bons cristãos.” Essa segregação fomentava uma união ,uma identidade das comunidades afro americanas que resultou no “espiritual negro”   e o   “blues” que são considerados os princípios do Jazz, cujo berço é  a Louisiana , Estado americano que surgiu francês, passou para a administração  da coroa  espanhola, voltou aos franceses e foi vendido  ao governo  dos Estados Unidos.
Dentre os muitos nomes que se tornaram ícones desse gênero musical, Louis Armstrong se tornou lendário, a Lousiana nunca mais seria a mesma com aquele gênio ilustre. Armstrong  considerado a personificação do Jazz, teve uma trajetória, típica dos meninos negros das famílias pobres, de uma América mergulhada no preconceito racial.  Devido a vida de miséria, sem perspectivas encontrou na música  os degraus necessários para uma vida de dignidade e reconhecimento público
O Estado da Louisiana no ano de 1727  recebeu um conjunto de normas chamado  “Code Noir” ,  no intuito de conceder um tratamento mais humano aos escravos. Esse tratado  fomentou uma escravidão mais liberal, dando condições  melhores aos negros tanto no trabalho como nos direitos civis. A colonização francesa e posteriormente a espanhola  resultou em uma mescla racial de brancos e negros, assim os filhos dos brancos com negros traziam nas veias os ritmos da África  e as linhas melódicas da Europa.
Se Louis Armstrong é a cara da Louisiana e sua raiz musical,  há outras estrelas que deixaram suas marcas e sua luz no universo do jazz. Como não se impressionar com   um dueto entre Louis Armstrong e Ella Fitzgerald interpretando “Summer Time” clássico da música americana  que lapidado pelas vozes brilhantes dessas duas lendas  tornou-se memorável ao longo de décadas.
 Semelhantes a Armstrong e Fitzgerald , inúmeras lendas como Count Basie, Miles Davis, Sarah Vaughan, Nina Simone, Dinah Washington e Duke Ellington não só se tornaram intérpretes memoráveis como criaram estilos, enriquecendo e ampliando a qualidade do jazz no mundo, para deleite de seus admiradores.
Ella Fitzgerald, morta em 1996 aos 78 anos  considerada ao longo de sua  trajetória artística a primeira dama da canção na América, superou o preconceito e foi em frente esbanjando carisma  presenteando os americanos com sua maior riqueza; a sua voz.
Nas décadas em que negros não eram dignos de  freqüentar os mesmos ambientes que os brancos , a menina pobre  e  órfã  após  a vitória em um show de amadores   foi descoberta por Chick Webb  líder de uma big band que procurava novos talentos. Ella ingressou na banda de Webb e nunca mais parou. Cantar era como uma necessidade, dona de uma  afinação impecável, uma dicção quase perfeita , percebia –se  a sua força rítmica, seu suingue e sua flexibilidade pronunciada. No século 20, cantora nenhuma popularizou o Jazz como Ella Fitzgerald que legou aos americanos não apenas a marca de 150 albúns, mas  o exemplo de que o preconceito pode ser esmagado pela arte  e pela alegria de cantar a vida.
 Homens e mulheres comuns  transformaram uma sociedade preconceituosa   que levou alguns à humilhação pública, outros  à morte  como Billie Holyday que cantou “estranha fruta”, expondo a fragilidade e a hipocrisia daquela sociedade, mergulhada no obscurantismo do ódio racial.
A vida e a alegria do jazz contagiou a América e mostrou que o talento e a persistência  são maiores  que o preconceito.

1 comentário:

  1. Maravilha de texto!Saudades professor...Parabéns pelo belíssimo Blog.Abraços.Terê Arceles

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