Quando viajava com sua banda para uma turnê de shows no sul dos Estados Unidos,
Billie Holiday ficou chocada com as cenas que se materializaram diante de seus olhos.
Em várias localidades ela percebeu a violência explícita com que eram tratados
os negros do sul. Diversos cadáveres de homens e mulheres eram vistos
pendurados nas árvores, queimados ou enforcados.
Na década de trinta, Holiday era
considerada uma das maiores cantoras de Jazz, gênero musical norte americano
que exerceria forte influência na cultura dos Estados Unidos no século 20. As
imagens nunca mais se apagaram da mente de Billie , que resolveu compor uma
música que viria a se tornar um dos primeiros clamores contra o racismo e o
preconceito intrínseco na sociedade
americana. A música: “Estranha
fruta” em pouco tempo tornou-se
conhecida e prestigiada por diversas emissoras de rádio sendo muitas vezes
utilizada como refrão nas manifestações que pipocavam principalmente no sul,
região onde o racismo era mais radical. A composição causava um forte impacto, percebia – se na
letra todo o sofrimento dos afro americanos: “Àrvores do sul dão fruta estranha
,sangue nas folhas e sangue na raiz .Corpos negros se balançando na brisa do
sul, fruta estranha pendurada”. É explicito
na letra da canção o drama dos negros do sul cantado por Billie que se pautava no cotidiano e na trajetória daquele grupo de pessoas oriundas da
África, dos séculos 17 a fins do 18.
Billie Holiday na sua curta carreira que se
findou aos 44 anos em 1959 sentiu na
pele o preconceito e o desprezo por ser mulher e negra condição desprezível
para a sociedade daquelas primeiras décadas do século 20. Holiday buscou refúgio nos tóxicos, em uma época que o dependente e o traficante
estavam na mesma escala de delito para a
polícia. Diversas vezes foi presa e
atravessou inúmeras crises que de certa forma abreviaram sua vida . Foi apenas
o Jazz que proporcionou momentos de
realização na vida da “ The Lady Day” como era conhecida. Escreveram que se
Billie tivesse se mudado para a Europa
teria vivido muito mais pois os artistas desse gênero musical são muito
reverenciados naquele continente.
A origem histórica do conflito racial em que Billie Holiday
se opôs teve início na América do Norte no século 17 quando os negros oriundos
do continente africano eram
transportados de forma precária até a América fomentando um comércio lucrativo para os
traficantes de escravos já que eram
mercadorias importantes, pois as grandes propriedades do sul movidas
pela monocultura do algodão eram geridas pela mão de obra barata que era o
escravo. Os lucros dos grandes
latifundiários eram estratosféricos e a principal forma de manter o negro
submisso e extrair dele a força física
na lavoura era destituí-lo de
toda a sua humanidade. Sem referências culturais, lingüísticas ou étnicas a
escravidão se consolidava facilmente.
Mas
o negro distante de sua terra e
de suas famílias encontraram nos rítimos
e sons uma forma de união e comunicação
muito próprias, que lhes permitia escapar ao controle dos seus algozes. Nessa
forma de manifestação percebe-se a origem do “blue” a dor e o sofrimento da
escravidão transformado em canção.
Esses cantos em pouco tempo passaram das
lavouras de algodão para os templos estabelecendo-se em igrejas negras
segregadas das comunidades sulistas brancas os “bons cristãos.” Essa segregação
fomentava uma união ,uma identidade das comunidades afro americanas que
resultou no “espiritual negro” e o “blues” que são considerados os princípios
do Jazz, cujo berço é a Louisiana ,
Estado americano que surgiu francês, passou para a administração da coroa
espanhola, voltou aos franceses e foi vendido ao governo
dos Estados Unidos.
Dentre os muitos nomes que se tornaram
ícones desse gênero musical, Louis Armstrong se tornou lendário, a Lousiana
nunca mais seria a mesma com aquele gênio ilustre. Armstrong considerado a personificação do Jazz, teve
uma trajetória, típica dos meninos negros das famílias pobres, de uma América
mergulhada no preconceito racial. Devido
a vida de miséria, sem perspectivas encontrou na música os degraus necessários para uma vida de
dignidade e reconhecimento público
O Estado da Louisiana no ano de 1727 recebeu um conjunto de normas chamado “Code Noir” ,
no intuito de conceder um tratamento mais humano aos escravos. Esse
tratado fomentou uma escravidão mais
liberal, dando condições melhores aos
negros tanto no trabalho como nos direitos civis. A colonização francesa e
posteriormente a espanhola resultou em
uma mescla racial de brancos e negros, assim os filhos dos brancos com negros
traziam nas veias os ritmos da África e
as linhas melódicas da Europa.
Se Louis Armstrong é a cara da Louisiana e
sua raiz musical, há outras estrelas que
deixaram suas marcas e sua luz no universo do jazz. Como não se impressionar
com um dueto entre Louis Armstrong e
Ella Fitzgerald interpretando “Summer Time” clássico da música americana que lapidado pelas vozes brilhantes dessas
duas lendas tornou-se memorável ao longo
de décadas.
Semelhantes a Armstrong e Fitzgerald ,
inúmeras lendas como Count Basie, Miles Davis, Sarah Vaughan, Nina Simone,
Dinah Washington e Duke Ellington não só se tornaram intérpretes memoráveis como
criaram estilos, enriquecendo e ampliando a qualidade do jazz no mundo, para
deleite de seus admiradores.
Ella Fitzgerald, morta em 1996 aos 78
anos considerada ao longo de sua trajetória artística a primeira dama da
canção na América, superou o preconceito e foi em frente esbanjando
carisma presenteando os americanos com
sua maior riqueza; a sua voz.
Nas décadas em que negros não eram dignos
de freqüentar os mesmos ambientes que os
brancos , a menina pobre e órfã
após a vitória em um show de amadores foi descoberta por Chick Webb líder de uma big band que procurava novos
talentos. Ella ingressou na banda de Webb e nunca mais parou. Cantar era como
uma necessidade, dona de uma afinação
impecável, uma dicção quase perfeita , percebia –se a sua força rítmica, seu suingue e sua
flexibilidade pronunciada. No século 20, cantora nenhuma popularizou o Jazz
como Ella Fitzgerald que legou aos americanos não apenas a marca de 150 albúns,
mas o exemplo de que o preconceito pode
ser esmagado pela arte e pela alegria de
cantar a vida.
Homens e mulheres comuns transformaram uma sociedade
preconceituosa que levou alguns à
humilhação pública, outros à morte como Billie Holyday que cantou “estranha
fruta”, expondo a fragilidade e a hipocrisia daquela sociedade, mergulhada no
obscurantismo do ódio racial.
A vida e a alegria do jazz contagiou a
América e mostrou que o talento e a persistência são maiores
que o preconceito.

Maravilha de texto!Saudades professor...Parabéns pelo belíssimo Blog.Abraços.Terê Arceles
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