A história da
arte se divide em períodos em que grandes mestres deixaram legados através de
suas obras que espelhavam o pensamento e a própria personalidade de cada um, ou até mesmo sua forma de encarar a vida,
privacidade, glórias e fracassos. Nesse aspecto, o artista holandês Rembrandt
van Rijn representou para a arte holandesa o mesmo que Francisco Goya para a história da arte espanhola, homens de
personalidade forte que, embora desenvolvessem seus trabalhos em períodos
diferentes, criaram modelos, estilos tão marcantes na arte de retratar que até
hoje causam espanto e admiração dos que têm a oportunidade de conhecê-los pelas
suas obras ou biografias.
Rembrandt
representou um período muito rico da pintura européia; o Barroco holandês, que
diferente dos demais países europeus, não produziu uma arte subjetiva usada
apenas como ferramenta ideológica da Igreja Católica, mas sim auto-retratos e
natureza morta, afinal o protestantismo era a religião que predominava na
Holanda e Rembrandt como bom protestante que era deu ênfase maior às temáticas
bíblicas em suas gravuras e pinturas. Nascido em 1606 em Leiden e filho de um
próspero moleiro, abandonou os estudos para se tornar pintor, ofício a que se
dedicou ao longo de sua vida. Com 25 anos encontrou em Amsterdam a
possibilidade de impulsionar sua carreira, constituir família, tornar-se famoso
pintor de retratos. Quando sua primeira esposa faleceu, em 1642 deixou-lhe
considerável fortuna, mas sua popularidade declinara: contraiu dívidas e,
quatorze anos depois os credores venderam sua casa e levaram seus quadros a
leilão. Mas Rembrandt conseguiu superar a situação difícil com trabalho e com a
ajuda da família.
Gombrich,
historiador da arte percebia nos retratos de Rembrandt a possibilidade dos
espectadores sentirem-se frente a pessoas de verdade, pois ao observar seus
retratos dava-se a impressão de sentir o calor, a simpatia e também o
sofrimento e a solidão da figura retratada. Em Amsterdam o mestre holandês foi
alvo de inúmeras homenagens, afinal há 400 anos nascia Rembrandt que fez da
Holanda uma potência da pintura européia e, suas obras estão espalhadas por
todos os lugares, seja no Louvre de Paris ou no Rijksmuseum de Amsterdam ou até
mesmo patrimônios de colecionadores
particulares.
A homenagem se
justifica, pois Rembrandt imortalizou sua própria vida nas suas obras e os seus admiradores terão a possibilidade de
visitar as 24 mostras homenageando esse
artistas de espírito puro.
Já Francisco
Goya (1746-1828), ícone da pintura espanhola, é um dos mais polêmicos da
pintura universal, pois sua pintura causou impacto frente ao estilo vigente e
tradicional da pintura de seu tempo.
Muito diferente de Rembrandt Goya militou por uma sociedade mais justa e
humana. Artista contratado pela corte espanhola teve várias oportunidades de
retratar seus membros sem usar de compaixão
pois as feições de seus retratos revelam impiedosamente toda a sua
fatuidade e ambição ,toda a sua feiúra e vacuidade como podemos perceber na
obra: “Rei Fernando VII de Espanha”, produzida em 1814. Goya odiava a
promiscuidade da aristocracia espanhola e condenava os vícios e as atuações
políticas do clero. O pintor não poupou ninguém, tinha a habilidade de registrar
os fatos sem que os personagens envolvidos tivessem consciência que estariam
sendo ridicularizados ou criticados.
A pintura de
Goya estava consolidada quando os franceses invadiram a Espanha sob o comando
de Napoleão Bonaparte. A ocupação causou uma reação por parte da população
civil espanhola que se materializou em ataques
às tropas francesas que sem piedade mataram milhares de espanhóis. Goya
registrou as cenas de selvageria e crueldade fazendo de sua arte, uma arte de
protesto contra as bestialidades e crueldades da guerra. Foram inúmeras
gravuras e quadros pintados em que parte desse período da história espanhola
ficou registrado. Por isso, alguns historiadores da arte o classificam como
representante do Realismo; movimento que buscava abandonar a idéia tradicional
do Romantismo que dava enfoque ao subjetivo, para dar lugar à realidade social
em todas as suas dimensões. A forma de retratar de Goya fez com que ele fosse
considerado o primeiro a lançar a idéia do foto-jornalismo ou seja, retratar a
cena no ápice do acontecimento, seu ofício como pintor tem como objetivo:
registrar a história da sociedade, seu cotidiano, seus anseios,
tragédias e as mazelas da corte e do clero. Se as gravuras de Goya chocaram
pelo realismo de suas cenas violentas com corpos despedaçados, estupros e
massacres, sua doença também o levou a produzir o sobrenatural com cenas
carregadas de puro pessimismo. Essa fase foi denominada a fase negra de Goya
quando o artista atingido por uma surdez se isolou no campo e produziu gravuras
com personagens bizarros, demônios, bruxas, rituais de magia negra explicitando
assim essa fase difícil de profunda depressão. Goya afirmava que esse momento
de sua vida foi o que ele pode exteriorizar todos os seus demônios interiores,
descarregando nas suas gravuras os seus medos e suas frustrações, suas revoltas
e sua decepção com a humanidade.
Goya deixou
como legado belíssimas obras de grande relevância para a história espanhola,
enriquecendo o universo da arte que o reverência pela sua sinceridade e
independência de expor suas convicções e idéias sem se preocupar com a reação
das pessoas que o cercavam.


Sem comentários:
Enviar um comentário