sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

HISTÓRIA DA ARTE Os anjos de Rembrandt e os demônios de Goya Leodefane Bispo da Silva


A história da arte se divide em períodos em que grandes mestres deixaram legados através de suas obras que espelhavam o pensamento e a própria personalidade de cada um, ou  até mesmo sua forma de encarar a vida, privacidade, glórias e fracassos. Nesse aspecto, o artista holandês Rembrandt van Rijn representou para a arte holandesa o mesmo que Francisco Goya  para a história da arte espanhola, homens de personalidade forte que, embora desenvolvessem seus trabalhos em períodos diferentes, criaram modelos, estilos tão marcantes na arte de retratar que até hoje causam espanto e admiração dos que têm a oportunidade de conhecê-los pelas suas obras ou biografias.
Rembrandt representou um período muito rico da pintura européia; o Barroco holandês, que diferente dos demais países europeus, não produziu uma arte subjetiva usada apenas como ferramenta ideológica da Igreja Católica, mas sim auto-retratos e natureza morta, afinal o protestantismo era a religião que predominava na Holanda e Rembrandt como bom protestante que era deu ênfase maior às temáticas bíblicas em suas gravuras e pinturas. Nascido em 1606 em Leiden e filho de um próspero moleiro, abandonou os estudos para se tornar pintor, ofício a que se dedicou ao longo de sua vida. Com 25 anos encontrou em Amsterdam a possibilidade de impulsionar sua carreira, constituir família, tornar-se famoso pintor de retratos. Quando sua primeira esposa faleceu, em 1642 deixou-lhe considerável fortuna, mas sua popularidade declinara: contraiu dívidas e, quatorze anos depois os credores venderam sua casa e levaram seus quadros a leilão. Mas Rembrandt conseguiu superar a situação difícil com trabalho e com a ajuda da família.
Gombrich, historiador da arte percebia nos retratos de Rembrandt a possibilidade dos espectadores sentirem-se frente a pessoas de verdade, pois ao observar seus retratos dava-se a impressão de sentir o calor, a simpatia e também o sofrimento e a solidão da figura retratada. Em Amsterdam o mestre holandês foi alvo de inúmeras homenagens, afinal há 400 anos nascia Rembrandt que fez da Holanda uma potência da pintura européia e, suas obras estão espalhadas por todos os lugares, seja no Louvre de Paris ou no Rijksmuseum de Amsterdam ou até mesmo  patrimônios de colecionadores particulares.
A homenagem se justifica, pois Rembrandt imortalizou sua própria vida nas suas obras e os  seus admiradores terão a possibilidade de visitar as 24 mostras homenageando  esse artistas de espírito puro.
Já Francisco Goya (1746-1828), ícone da pintura espanhola, é um dos mais polêmicos da pintura universal, pois sua pintura causou impacto frente ao estilo vigente e tradicional da pintura de seu tempo.  Muito diferente de Rembrandt Goya militou por uma sociedade mais justa e humana. Artista contratado pela corte espanhola teve várias oportunidades de retratar seus membros sem usar de compaixão  pois as feições de seus retratos revelam impiedosamente toda a sua fatuidade e ambição ,toda a sua feiúra e vacuidade como podemos perceber na obra: “Rei Fernando VII de Espanha”, produzida em 1814. Goya odiava a promiscuidade da aristocracia espanhola e condenava os vícios e as atuações políticas do clero. O pintor não poupou ninguém, tinha a habilidade de registrar os fatos sem que os personagens envolvidos tivessem consciência que estariam sendo ridicularizados ou criticados.
A pintura de Goya estava consolidada quando os franceses invadiram a Espanha sob o comando de Napoleão Bonaparte. A ocupação causou uma reação por parte da população civil espanhola que se materializou em ataques  às tropas francesas que sem piedade mataram milhares de espanhóis. Goya registrou as cenas de selvageria e crueldade fazendo de sua arte, uma arte de protesto contra as bestialidades e crueldades da guerra. Foram inúmeras gravuras e quadros pintados em que parte desse período da história espanhola ficou registrado. Por isso, alguns historiadores da arte o classificam como representante do Realismo; movimento que buscava abandonar a idéia tradicional do Romantismo que dava enfoque ao subjetivo, para dar lugar à realidade social em todas as suas dimensões. A forma de retratar de Goya fez com que ele fosse considerado o primeiro a lançar a idéia do foto-jornalismo ou seja, retratar a cena no ápice do acontecimento, seu ofício como pintor tem como objetivo: registrar a  história  da sociedade, seu cotidiano, seus anseios, tragédias e as mazelas da corte e do clero. Se as gravuras de Goya chocaram pelo realismo de suas cenas violentas com corpos despedaçados, estupros e massacres, sua doença também o levou a produzir o sobrenatural com cenas carregadas de puro pessimismo. Essa fase foi denominada a fase negra de Goya quando o artista atingido por uma surdez se isolou no campo e produziu gravuras com personagens bizarros, demônios, bruxas, rituais de magia negra explicitando assim essa fase difícil de profunda depressão. Goya afirmava que esse momento de sua vida foi o que ele pode exteriorizar todos os seus demônios interiores, descarregando nas suas gravuras os seus medos e suas frustrações, suas revoltas e sua decepção com a humanidade.
Goya deixou como legado belíssimas obras de grande relevância para a história espanhola, enriquecendo o universo da arte que o reverência pela sua sinceridade e independência de expor suas convicções e idéias sem se preocupar com a reação das pessoas que o cercavam. 

1-REMBRANDT

2-GOYA

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