ANOS 70
A
DÉCADA DE OURO DAS FOTONOVELAS ITALIANAS
O
romantismo desde os primórdios da Idade Média tinha como essência o mais puro
sentimento. Esse aspecto subjetivo encontrou sua maior expressão nas artes plásticas, na escultura, na arquitetura e
principalmente na literatura do século XVIII cuja essência eram os amores não correspondidos , o
sofrimento pelo amado ou amada, os
amores proibidos e principalmente nos desejos escondidos, nos sonhos não
realizados, e a expectativa de que a
felicidade a qualquer momento poderia ser enfim encontrada onde a plenitude do amor poderia alcançar seu
ápice.
Nos anos setenta um público expressivo legou
essa onda de sentimentalismo tendo como instrumento dois grandes
veículos populares de comunicação: a televisão e as revistas de fotonovelas
italianas. Era o momento das grandes conturbações políticas no país, que
mergulhava na ditadura e que impunha reformas em todos os patamares sociais.
Dentre as inúmeras tendências dessa mudança,
esses veículos de comunicação
representavam uma fatia importantíssima dessa engrenagem. Tanto a televisão como as revistas de entretenimento
tornaram-se ferramentas úteis nas
manobras do governo militar para desviar
a atenção da sociedade dos diversos conflitos disseminados por todo o País.
Nesse
aspecto, um conjunto de idéias contribuíram para fortalecer o ideal do regime.
As pessoas deveriam preocupar-se não com política, mais com seus sonhos, seus
projetos familiares, o amor desejado que era idealizado nos folhetins
televisivos e nas fotonovelas italianas,
ou seja o romantismo explícito deveria exercer um papel fundamental no
imaginário desses brasileiros. Essa onda estigmatizou toda uma geração, sua
consolidação e influência moldaram o projeto
da ditadura, pois sua popularidade obscureceu toda e qualquer conscientização política dessa parcela da
população brasileira.
A
dificuldade de possuir um aparelho de televisão por grande parte da população
no início dos anos setenta foi vencida pela facilidade de se adquirir essas revistas, independente
de região ou localidade. Tanto o preço,
como os temas românticos do produto na época, atraía e justificava sua grande
popularidade.
As
fotonovelas eram importadas da Itália cujos roteiros e fotos traduziam arquétipos da própria nacionalidade italiana
como figurinos , linguagem, tradições.
As
histórias variavam em temas policiais, românticos e até sobrenaturais. O
formato dessas revistas se moldava ao gosto do público, que nos mesmos padrões
de assédio aos astros de Hollywood e da
televisão, cultuavam e acumulavam coleções de revistas com imagens dos seus
ídolos.
Dentre
eles, os que mais se destacavam eram as atrizes: Michela Roc, Claudia Rivelli,
Paola Pitti e Katiuscia que juntamente
com os atores: Jean Mary Carletto, Franco Gasparri e Franco Dani cativavam um mercado onde os produtos
oferecidos em suas páginas de publicidade tinham sucesso garantido.
Eram
inúmeras as revistas, dentre as mais importantes: “Grande Hotel”, “Jacques
Douglas”, “Luck Martin” dentre outras.
Seguindo
essa onda de sucesso, atores e atrizes brasileiros se renderam a essa arte.
Revistas populares da época como “Sétimo Céu” e “Amiga” traziam uma novidade:
fotonovelas brasileiras em cores, uma evolução para a época.
As
histórias eram recheadas de dramas, disputas, crimes e até comédias onde
através das poses fotográficas, os artistas davam o melhor de si na arte de
representar.
Independente
das fotonovelas que atendiam ao gosto do governo militar, com seu excesso de
romantismo, outras manifestações culturais
que ofereciam alguma resistência em relação ao regime eram a música, o teatro e o cinema. Chico Buarque,
Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Elis Regina denunciavam em suas canções as
atrocidades e as torturas sofridas por
militantes políticos. O cineasta Glauber Rocha concebia produções
cinematográficas com metáforas criticando o governo e a falta de liberdade que o mesmo impunha à sociedade. Em contrapartida, a sociedade via nas
fotonovelas um modelo de entretenimento que não causava mal algum à moral à ética
familiar e aos bons costumes. Os artistas italianos dessas fotonovelas,
encabeçavam esse Olimpo de deuses adorados que interviam nos sonhos e nos
anseios dos brasileiros, que envolvidos em sentimentalismo, fizeram desse
produto um marco na história cultural do País.




