sábado, 12 de janeiro de 2013

África: um continente ferido



O  escritor Joseph Ki- Zerbo , um dos mais renomados intelectuais da  África,  Estudou na Universidade de Sorbonne e  dedicou parte de sua vida a estudar seu continente, e os reinos antigos, bem como as nações que se formaram  com a descolonização. A obra de Zerbo, Para quando a África? Lançada pela editora Pallas  procura expor um continente de ricas tradições civilizações milenares, tendo seu passado de glórias,  apagado pela ganancia e pela exploração sofrida no século 18 com a neocolonização. De uma forma geral percebe-se que  Ki-Zerbo  resgata o brilhantismo e a organização dos primeiros reinos africanos, destacando o papel da sociedade e dos monarcas que  nos vários modelos gestionários possibilitou uma África  onde a democracia de base existia ao abrigo de estruturas aldeãs com a representação de várias famílias, já o neocolonialismo impôs uma ruptura que passou a ser preenchida pelos homens de posses e pelos que ascenderiam ao poder.  O autor ainda explora as mazelas  econômicas e políticas e o legado dos vários povos colonizados onde os direitos humanos e a educação foram relegados a último plano. Diferente de outros povos que via no nacionalismo uma forma de fortalecimento e de identidade, o continente  não saboreou a mesma experiência. O legado desse  paradigma, tornou  as futuras democracias em governos débeis como afirma  Ki-Zerbo:
Um dos grandes defeitos da África é não ter elites independentes que gozem de meios financeiros que lhes garantam uma autonomia em relação ao poder político. Não há burguesia ou classe média constituída. Devido ao nepotismo e/ou à corrupção, a direção dos Estados africanos não pode assegurar corretamente a sua responsabilidade em relação aos interesses das camadas majoritárias da população.[1]
Durante todo o século 20 o continente sofreu inexoravelmente, seja através de conflitos étnicos, fome, crises econômicas constantes e ditaduras perversas onde o terreno se tornava cada vez mais árido para o surgimento do ideal democrático.  Os empecilhos citados  nos leva à seguinte reflexão:  apesar do fracasso em instalar uma democracia participativa e igualitária no continente, porque países tão ricos em recursos naturais não atingiram o mesmo grau de desenvolvimento  de países da Europa?  Conforme o autor a Europa alcançou esse grau de desenvolvimento por se beneficiar de muitas invenções chinesas como a bússola, a  pólvora,  e a imprensa que permitiram ao velho continente enriquecer, acumular e preparar as vias da tecnologia industrial; como exemplo podemos citar a Inglaterra onde teve início a Revolução Industrial,  instituída a mercê do monopólio do  tráfico de escravos em grande escala.
A dinâmica neocolonial foi relegar à África ao confinamento e à imitação, reproduzindo os paradigmas das colonizações anteriores: explorar a matéria-prima, industrializar e vender as manufaturas  por preços exorbitantes aos povos colonizados.
Em relação à tentativa de implantar o socialismo no continente (CASTRO, 1981, p.118) aponta que a longo prazo o papel do comunismo fora o de transformar numa barreira negativa contra a difusão dos modelos de desenvolvimento e valores ocidentais nos novos países que iam surgir na  África, percebe-se que na prática houve uma repulsa na atração exercida pelos valores ocidentais nos recém-formados países africanos, induzida pelo autoritarismo exacerbado e mal dirigido. Após o movimento de descolonização, que gerou a independência de muitos países , embora ainda dependentes dos valores ocidentais, procuraram rejeitá-los: para isso a ideologia comunista antiocidental muito contribuiu.
Ao aprofundarmos a discussão, buscamos em Ki-Zerbo os apontamentos referentes à neocolonização ao  conceber essa prática como responsável pelo esmagamento do modelo antes existentes nos reinos africanos, consolidando novas formas de regimes democráticos que os africanos não estavam  habituados.
Mas o que emperra a África  no campo da ciência da tecnologia e do conhecimento?
Ki-Zerbo responde  a René holenstein,  sobre a importância de novas tecnologias modernas da comunicação como instrumentos novos. Mas o autor acrescenta:
Quanto ao computador, é o aparelho no estado bruto: ensinam-nos mecanicamente a utilizá-los, mas não o integramos como uma engrenagem do nosso próprio sistema.
É esse o problema capital da introdução das tecnologias de ponta na África.
Em relação à educação faz parte dos direitos imprescritíveis, pois é de responsabilidade do Estado é uma exigência da dignidade humana.[2]
Essa agonia paira não apenas no continente africano, mas em vários países da periferia global, pois o retrato do desenvolvimento se constitui de tecnologia e educação de qualidade e isso não é prioritário em muitos países do continente. Há ainda a questão dos direitos humanos violados em várias regiões do mundo. Esse  fato no continente é seríssimo, frente às inúmeras áreas de conflito e de campos de refugiados. No último capítulo o autor se dedica a explorar esse assunto afirmando que muitos dirigentes comportam-se como se esse direito não existisse. São muitos os regimes africanos que sistematicamente, através de textos de leis e de decretos, esvaziam da sua substância  os direitos protegidos pela constituição. Um dos exemplos foi o ditador de Uganda Idi Amin Dada, o popular “paizão”. Conforme (KLEIN,2004, p.. 241)  a  ignorância abissal
 Desse tirano, fez com que ele odiasse a educação, pessoas instruídas e as instituições. Amin um dos grandes violadores dos direitos humanos no continente tinha como prática atingir suas vítimas, cortando os órgãos genitais, um dos braços ou uma da pernas de, deixando-as morrer até sangrar. A natureza psicopata de Amin não poupou nem a sua família.
Desrespeitados por vários governos que  violam a própria constituição, várias democracias frágeis no continente  adotam essa prática. Vale ressaltar que o autor K- Zerbo amplia a discussão nesse viés trazendo exemplos dos direitos humanos em uma época  onde as comunidades antigas tinham suas regras e leis,  condenando vários desvios na sociedade e punindo severamente.
Para encerrar a discussão vale fazer uma reflexão no texto de Andrés Oppenheimer[3] ao dar um exemplo do que resulta o investimento tecnológico e educação de qualidade. Receita para várias nações do continente africano, Oppenheimer afirma que o caso de Cingapura nesse aspecto é notável. Era uma colônia inglesa mergulhada na pobreza que se converteu em pais em 1965. Era tão pobre, que seus líderes políticos pediram à vizinha Malásia para serem anexados, e voltaram com as mão vazias: a Malásia entendeu como um péssimo negócio. Ao se tornar independente em 1965 , muitos países viam o futuro de Cingapura como incerto e desastroso. O presidente eleito Lee Kuan Yew, que fora advogado dos sindicatos comunistas, concentrou todos os esforços em educação. Tornou o inglês idioma oficial em 1978 e se dedicou a atrair empresas tecnológicas de todas as partes do mundo. No começo do século 21 Cingapura tinha sua renda per capita semelhante à da Grã- Bretanha.
O sufoco gerado pelo neocolonialismo é um mau que só pode ser curado com a consciência popular em reconhecer sua autossuficiência histórica e de se orgulhar de suas raízes. Assim como as mulheres no continente carregam um legado de militância ao longo do tempo como afirma K-Zerbo. O continente pode avançar utilizando o mesmo exemplo de Cingapura que muitos vizinhos não davam nenhuma esperança se livrando das amarras do passado que impede sua caminhada e seu desenvolvimento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CASTRO, T. de. África: Geohistória, geopolítica e Relações Internacionais. Rio de Janieor: Biblioteca do Exército, 1981
KLEIN, S. Os ditadores mais perversos da História. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2004.
KERB, J.K. Para quando África? Entrevista com René Holestein, tradução: Carlos Aboim de Brito. Rio de Janeiro:  Pallas, 2006.
OPENHEIMER, A. Contos-do-Vigário: o engano de Washington, a mentira populista e a esperança da América Latina. Rio de Janeiro: Record, 2007.



[1] KERB, J. K. Para quando  África? Entrevista com René Holestein. Tradução Carlos Aboim de Brito. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

[2] KERB, J. K. Para quando África? Entrevista com René Holestein. Tradução Carlos Aboim de Brito. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.


[3] OPPENHEIMER, A .Contos do Vigári. O engano de Washington, A mentira populista e a esperança da América Latina.Rio de Janeiro: Record, 2007.







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