O escritor Joseph Ki- Zerbo , um dos mais
renomados intelectuais da África, Estudou na Universidade de Sorbonne e dedicou parte de sua vida a estudar seu
continente, e os reinos antigos, bem como as nações que se formaram com a descolonização. A obra de Zerbo, Para
quando a África? Lançada pela editora Pallas
procura expor um continente de ricas tradições civilizações milenares,
tendo seu passado de glórias, apagado
pela ganancia e pela exploração sofrida no século 18 com a neocolonização. De
uma forma geral percebe-se que
Ki-Zerbo resgata o brilhantismo e
a organização dos primeiros reinos africanos, destacando o papel da sociedade e
dos monarcas que nos vários modelos
gestionários possibilitou uma África onde a democracia de base existia ao abrigo de
estruturas aldeãs com a representação de várias famílias, já o neocolonialismo
impôs uma ruptura que passou a ser preenchida pelos homens de posses e pelos
que ascenderiam ao poder. O autor ainda
explora as mazelas econômicas e
políticas e o legado dos vários povos colonizados onde os direitos humanos e a
educação foram relegados a último plano. Diferente de outros povos que via no
nacionalismo uma forma de fortalecimento e de identidade, o continente não saboreou a mesma experiência. O legado
desse paradigma, tornou as futuras democracias em governos débeis
como afirma Ki-Zerbo:
Um
dos grandes defeitos da África é não ter elites independentes que gozem de
meios financeiros que lhes garantam uma autonomia em relação ao poder político.
Não há burguesia ou classe média constituída. Devido ao nepotismo e/ou à
corrupção, a direção dos Estados africanos não pode assegurar corretamente a
sua responsabilidade em relação aos interesses das camadas majoritárias da
população.[1]
Durante todo o século
20 o continente sofreu inexoravelmente, seja através de conflitos étnicos,
fome, crises econômicas constantes e ditaduras perversas onde o terreno se
tornava cada vez mais árido para o surgimento do ideal democrático. Os empecilhos citados nos leva à seguinte reflexão: apesar do fracasso em instalar uma democracia
participativa e igualitária no continente, porque países tão ricos em recursos
naturais não atingiram o mesmo grau de desenvolvimento de países da Europa? Conforme o autor a Europa alcançou esse grau
de desenvolvimento por se beneficiar de muitas invenções chinesas como a bússola,
a pólvora, e a imprensa que permitiram ao velho
continente enriquecer, acumular e preparar as vias da tecnologia industrial;
como exemplo podemos citar a Inglaterra onde teve início a Revolução Industrial,
instituída a mercê do monopólio do tráfico de escravos em grande escala.
A dinâmica neocolonial
foi relegar à África ao confinamento e à imitação, reproduzindo os paradigmas
das colonizações anteriores: explorar a matéria-prima, industrializar e vender
as manufaturas por preços exorbitantes aos
povos colonizados.
Em relação à tentativa
de implantar o socialismo no continente (CASTRO, 1981, p.118) aponta que a
longo prazo o papel do comunismo fora o de transformar numa barreira negativa
contra a difusão dos modelos de desenvolvimento e valores ocidentais nos novos
países que iam surgir na África,
percebe-se que na prática houve uma repulsa na atração exercida pelos valores
ocidentais nos recém-formados países africanos, induzida pelo autoritarismo
exacerbado e mal dirigido. Após o movimento de descolonização, que gerou a
independência de muitos países , embora ainda dependentes dos valores
ocidentais, procuraram rejeitá-los: para isso a ideologia comunista
antiocidental muito contribuiu.
Ao aprofundarmos a
discussão, buscamos em Ki-Zerbo os apontamentos referentes à neocolonização
ao conceber essa prática como
responsável pelo esmagamento do modelo antes existentes nos reinos africanos,
consolidando novas formas de regimes democráticos que os africanos não estavam habituados.
Mas o que emperra a
África no campo da ciência da tecnologia
e do conhecimento?
Ki-Zerbo responde a René holenstein, sobre a importância de novas tecnologias
modernas da comunicação como instrumentos novos. Mas o autor acrescenta:
Quanto ao computador, é o aparelho
no estado bruto: ensinam-nos mecanicamente a utilizá-los, mas não o integramos
como uma engrenagem do nosso próprio sistema.
É esse o problema capital da
introdução das tecnologias de ponta na África.
Em relação à educação faz parte dos
direitos imprescritíveis, pois é de responsabilidade do Estado é uma exigência
da dignidade humana.[2]
Essa
agonia paira não apenas no continente africano, mas em vários países da periferia
global, pois o retrato do desenvolvimento se constitui de tecnologia e educação
de qualidade e isso não é prioritário em muitos países do continente. Há ainda
a questão dos direitos humanos violados em várias regiões do mundo. Esse fato no continente é seríssimo, frente às
inúmeras áreas de conflito e de campos de refugiados. No último capítulo o
autor se dedica a explorar esse assunto afirmando que muitos dirigentes
comportam-se como se esse direito não existisse. São muitos os regimes
africanos que sistematicamente, através de textos de leis e de decretos,
esvaziam da sua substância os direitos
protegidos pela constituição. Um dos exemplos foi o ditador de Uganda Idi Amin
Dada, o popular “paizão”. Conforme (KLEIN,2004, p.. 241) a
ignorância abissal
Desse tirano, fez com que ele odiasse a
educação, pessoas instruídas e as instituições. Amin um dos grandes violadores
dos direitos humanos no continente tinha como prática atingir suas vítimas,
cortando os órgãos genitais, um dos braços ou uma da pernas de, deixando-as
morrer até sangrar. A natureza psicopata de Amin não poupou nem a sua família.
Desrespeitados por
vários governos que violam a própria
constituição, várias democracias frágeis no continente adotam essa prática. Vale ressaltar que o
autor K- Zerbo amplia a discussão nesse viés trazendo exemplos dos direitos
humanos em uma época onde as comunidades
antigas tinham suas regras e leis,
condenando vários desvios na sociedade e punindo severamente.
Para encerrar a
discussão vale fazer uma reflexão no texto de Andrés Oppenheimer[3] ao
dar um exemplo do que resulta o investimento tecnológico e educação de
qualidade. Receita para várias nações do continente africano, Oppenheimer
afirma que o caso de Cingapura nesse aspecto é notável. Era uma colônia inglesa
mergulhada na pobreza que se converteu em pais em 1965. Era tão pobre, que seus
líderes políticos pediram à vizinha Malásia para serem anexados, e voltaram com
as mão vazias: a Malásia entendeu como um péssimo negócio. Ao se tornar
independente em 1965 , muitos países viam o futuro de Cingapura como incerto e
desastroso. O presidente eleito Lee Kuan Yew, que fora advogado dos sindicatos
comunistas, concentrou todos os esforços em educação. Tornou o inglês idioma
oficial em 1978 e se dedicou a atrair empresas tecnológicas de todas as partes
do mundo. No começo do século 21 Cingapura tinha sua renda per capita
semelhante à da Grã- Bretanha.
O sufoco gerado pelo
neocolonialismo é um mau que só pode ser curado com a consciência popular em
reconhecer sua autossuficiência histórica e de se orgulhar de suas raízes.
Assim como as mulheres no continente carregam um legado de militância ao longo
do tempo como afirma K-Zerbo. O continente pode avançar utilizando o mesmo
exemplo de Cingapura que muitos vizinhos não davam nenhuma esperança se
livrando das amarras do passado que impede sua caminhada e seu desenvolvimento.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
CASTRO, T. de. África:
Geohistória, geopolítica e Relações Internacionais. Rio de Janieor: Biblioteca
do Exército, 1981
KLEIN, S. Os ditadores
mais perversos da História. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2004.
KERB, J.K. Para quando
África? Entrevista com René Holestein, tradução: Carlos Aboim de Brito. Rio de
Janeiro: Pallas, 2006.
OPENHEIMER, A.
Contos-do-Vigário: o engano de Washington, a mentira populista e a esperança da
América Latina. Rio de Janeiro: Record, 2007.
[1] KERB,
J. K. Para quando África? Entrevista com
René Holestein. Tradução Carlos Aboim de Brito. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.
[2] KERB,
J. K. Para quando África? Entrevista com René Holestein. Tradução Carlos Aboim
de Brito. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.
[3]
OPPENHEIMER, A .Contos do Vigári. O engano de Washington, A mentira populista e
a esperança da América Latina.Rio de Janeiro: Record, 2007.

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