Em cinco séculos de história podemos dizer que o
Brasil é um País verdadeiramente abençoado por Deus em vários aspectos: maior
potência fluvial, pulmão verde do mundo, País onde grupos étnicos de diversas
origens convivem pacificamente, terra isenta de catástrofes naturais... enfim,
se fôssemos numerar os pontos positivos do nosso País, esse espaço com certeza
não seria suficiente, porém no aspecto social e político somos um País
esfacelado e fadados ao retrocesso. A educação nos anos 50 e 60 era
caracterizada por valores superiores aos
dos dias atuais, era um período no qual o País não era regido pela massificação
da mídia televisiva, nem por uma cultura empobrecida isenta de valores.
O
advento da televisão no Brasil deu origem a programas populares e a produção de
telenovelas que em pouco tempo passaram a reproduzir arquétipos do cotidiano
social, semelhante a um espelho que seduzia mais e mais a sociedade. Não era
apenas um meio de entretenimento, era a própria alma do Brasil materializada na
telinha definindo seu futuro, sua história.
As
décadas passaram. No período de colonização apenas os filhos dos grandes
latifundiários podiam receber uma formação digna na Europa para depois
retornarem e se constituírem os dirigentes do País . Hoje, o processo segue os
mesmos paradigmas, os filhos dos poderosos, principalmente dos ‘políticos
coronéis’, são herdeiros naturais na administração dos diversos setores que
constituem o Estado. Nesse aspecto, o
Brasil tornou-se ao longo de sua história uma espécie de patrimônio
privado, fornecendo regalias para poucos enquanto as massas acabam se contentando com migalhas, seja na
educação ineficiente, na saúde cada vez mais precária ou nos direitos básicos.
Para
ser um poderoso político no Brasil é necessário possuir uma emissora de
televisão, um jornal impresso, uma emissora de rádio ou os três juntos. Dessa
forma a reeleição com certeza estará garantida.
Ganhar
o coração e as almas dos brasileiros seguindo esses paradigmas é uma prática
comum na história. Tudo acaba se consolidando naturalmente. Um discurso bem
planejado recheado de um bom marketing é uma receita infalível.
O
programa da Rede Globo Big Brother é uma boa referência para entendermos a
situação crônica que o País atravessa. Um reality show importado que desde a
sua estréia mantém uma audiência avassaladora todas as noites. De ‘ponta a
ponta’ do País, milhões de brasileiros ficam imobilizados frente aos seus
televisores para escolher o candidato que permanecerá na casa e que receberá o
prêmio milionário no final da competição.
O
programa que em termos de qualidade está no mesmo patamar de ampla parte da
programação transmitida pela emissora, possui caráter execrável, ou seja, não
soma, apenas subtrai a inteligência de qualquer criatura. Assim, segue o ritmo
dos programas de outras concorrentes, afinal o objetivo real é atingir uma
massa de milhões de pessoas na disputa pela audiência. Essas pessoas, em grande
parte, têm apenas o seu aparelho como meio de entretenimento, resultando em uma
formação cultural muito pobre, isenta de valores diversos como conhecimento da
própria história e posições políticas e críticas inertes.
Há
pouco tempo, moradores de um lugarejo do sertão nordestino tiveram o primeiro
contato com a televisão. O pequeno aparelho tornou-se uma grande atração para
aquelas pessoas, sendo colocado em lugar de destaque na praça central para que todos tivessem
acesso e usufruíssem da novidade. A
praça começou a encher, pois todos queriam estar na lá para assistir os
diversos programas em exibição. O resultado viria com o tempo, começando pela
transformação do cotidiano daquelas pessoas. Assim, eles perderiam suas práticas
culturais que eram pautadas nas rodas de conversas, nos costumes dos
antepassados e nas muitas festas carregadas de elementos culturais riquíssimos.
A partir daquela rotina, seriam tragados por aquela nova linguagem, pelas
marcas anunciadas e pelas pessoas belas e perfeitas que seriam modelos a serem copiadas. O destino daquela comunidade
com certeza seria afetado desde então.
Do
micro para o macro, o Brasil, a partir dos anos 60, reproduziu a mesma
experiência e a televisão ainda hipnotiza crianças, jovens e adultos sendo seu
mais forte ponto de referência cultural em um País que se esvazia dia após dia
do conhecimento real encontrado nos livros, na música de qualidade e no teatro.
O
Big Brother envolve milhões de pessoas. Milhões de ligações são realizadas todos os dias para a emissora
líder em audiência. Um lucro assustador, no qual o dinheiro suado é jogado nos
cofres de grupos que se enriquecem mais e mais dando pão e circo aos milhões
que assistem inertes sem perceber sua própria ruína.
Em todos os lugares
do País, o desfecho do programa torna-se o assunto central. É uma vitrine de
vaidades, carnes frescas e sadias, indução ao sexo ilícito e muita, muita
linguagem ‘chula’ que contribuem para formar uma espécie de dependência
insaciável na busca de cenas exóticas, sensuais e medíocres, explorando um
público cada vez mais crescente. Quadro perfeito para os que lutam contra o
desenvolvimento da nação, para os que militam pelas suas causas pessoais com
promessas inúteis e vazias. Que durante quatro anos de mandato, investem apenas
na sua reeleição e em seus patrimônios pessoais.
O País que é modelo de democracia para outros povos quando
realiza suas eleições, não pode ser considerado o mesmo modelo na postura da
maioria de seus eleitores, afinal muitos conhecem o dia-a-dia de cada
personagem das inúmeras telenovelas exibidas nos canais abertos, além de
conhecer e aplaudir os candidatos do Big Brother. Derrama-se lágrimas por cada
candidato que vai para o paredão, comove-se com o personagem da heroína Regina
Duarte e dá-se lugar a uma irritação sem medida pela figura da vilã do mesmo
folhetim. No entanto, não há lembranças dos últimos candidatos em quem votamos
e muito menos dos projetos idealizados e prometidos por eles.
Pobre
geração, empobrecida de cultura, livros e conhecimentos diversos, às margens do
esquecimento do Estado, vítimas da própria sorte. Habitamos a terra da
prosperidade, o País tropical abençoado por Deus e bonito por natureza como diz
a canção, mas fica a pergunta... Quantos brasileiros podem entoar a mesma canção e vivenciá-la na
prática cotidiana?

Parto sempre da ideia de que tudo o que produzimos é cultura, mas de acordo com a opinião, professor. Excelente texto inclusive, parabéns!
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