sábado, 12 de janeiro de 2013

BBB - RETROCESSO COGNITIVO


Em  cinco séculos de história podemos dizer que o Brasil é um País verdadeiramente abençoado por Deus em vários aspectos: maior potência fluvial, pulmão verde do mundo, País onde grupos étnicos de diversas origens convivem pacificamente, terra isenta de catástrofes naturais... enfim, se fôssemos numerar os pontos positivos do nosso País, esse espaço com certeza não seria suficiente, porém no aspecto social e político somos um País esfacelado e fadados ao retrocesso. A educação nos anos 50 e 60 era caracterizada  por valores superiores aos dos dias atuais, era um período no qual o País não era regido pela massificação da mídia televisiva, nem por uma cultura empobrecida isenta de valores.


O advento da televisão no Brasil deu origem a programas populares e a produção de telenovelas que em pouco tempo passaram a reproduzir arquétipos do cotidiano social, semelhante a um espelho que seduzia mais e mais a sociedade. Não era apenas um meio de entretenimento, era a própria alma do Brasil materializada na telinha definindo seu futuro, sua história.
As décadas passaram. No período de colonização apenas os filhos dos grandes latifundiários podiam receber uma formação digna na Europa para depois retornarem e se constituírem os dirigentes do País . Hoje, o processo segue os mesmos paradigmas, os filhos dos poderosos, principalmente dos ‘políticos coronéis’, são herdeiros naturais na administração dos diversos setores que constituem o Estado. Nesse aspecto, o  Brasil tornou-se ao longo de sua história uma espécie de patrimônio privado, fornecendo regalias para poucos enquanto as massas  acabam se contentando com migalhas, seja na educação ineficiente, na saúde cada vez mais precária ou nos direitos básicos.
Para ser um poderoso político no Brasil é necessário possuir uma emissora de televisão, um jornal impresso, uma emissora de rádio ou os três juntos. Dessa forma a reeleição com certeza estará garantida.
Ganhar o coração e as almas dos brasileiros seguindo esses paradigmas é uma prática comum na história. Tudo acaba se consolidando naturalmente. Um discurso bem planejado recheado de um bom marketing é uma receita infalível.
O programa da Rede Globo Big Brother é uma boa referência para entendermos a situação crônica que o País atravessa. Um reality show importado que desde a sua estréia mantém uma audiência avassaladora todas as noites. De ‘ponta a ponta’ do País, milhões de brasileiros ficam imobilizados frente aos seus televisores para escolher o candidato que permanecerá na casa e que receberá o prêmio milionário no final da competição.
O programa que em termos de qualidade está no mesmo patamar de ampla parte da programação transmitida pela emissora, possui caráter execrável, ou seja, não soma, apenas subtrai a inteligência de qualquer criatura. Assim, segue o ritmo dos programas de outras concorrentes, afinal o objetivo real é atingir uma massa de milhões de pessoas na disputa pela audiência. Essas pessoas, em grande parte, têm apenas o seu aparelho como meio de entretenimento, resultando em uma formação cultural muito pobre, isenta de valores diversos como conhecimento da própria história e posições políticas e críticas inertes.
Há pouco tempo, moradores de um lugarejo do sertão nordestino tiveram o primeiro contato com a televisão. O pequeno aparelho tornou-se uma grande atração para aquelas pessoas, sendo colocado em lugar de destaque  na praça central para que todos tivessem acesso e usufruíssem da novidade.  A praça começou a encher, pois todos queriam estar na lá para assistir os diversos programas em exibição. O resultado viria com o tempo, começando pela transformação do cotidiano daquelas pessoas. Assim, eles perderiam suas práticas culturais que eram pautadas nas rodas de conversas, nos costumes dos antepassados e nas muitas festas carregadas de elementos culturais riquíssimos. A partir daquela rotina, seriam tragados por aquela nova linguagem, pelas marcas anunciadas e pelas pessoas belas e perfeitas que seriam modelos   a serem copiadas. O destino daquela comunidade com certeza seria afetado desde então.
Do micro para o macro, o Brasil, a partir dos anos 60, reproduziu a mesma experiência e a televisão ainda hipnotiza crianças, jovens e adultos sendo seu mais forte ponto de referência cultural em um País que se esvazia dia após dia do conhecimento real encontrado nos livros, na música de qualidade e no teatro.
O Big Brother envolve milhões de pessoas. Milhões de ligações  são realizadas todos os dias para a emissora líder em audiência. Um lucro assustador, no qual o dinheiro suado é jogado nos cofres de grupos que se enriquecem mais e mais dando pão e circo aos milhões que assistem inertes sem perceber sua própria ruína.
Em  todos os lugares do País, o desfecho do programa torna-se o assunto central. É uma vitrine de vaidades, carnes frescas e sadias, indução ao sexo ilícito e muita, muita linguagem ‘chula’ que contribuem para formar uma espécie de dependência insaciável na busca de cenas exóticas, sensuais e medíocres, explorando um público cada vez mais crescente. Quadro perfeito para os que lutam contra o desenvolvimento da nação, para os que militam pelas suas causas pessoais com promessas inúteis e vazias. Que durante quatro anos de mandato, investem apenas na sua reeleição e em seus patrimônios pessoais.
O País que é modelo de democracia para outros povos quando realiza suas eleições, não pode ser considerado o mesmo modelo na postura da maioria de seus eleitores, afinal muitos conhecem o dia-a-dia de cada personagem das inúmeras telenovelas exibidas nos canais abertos, além de conhecer e aplaudir os candidatos do Big Brother. Derrama-se lágrimas por cada candidato que vai para o paredão, comove-se com o personagem da heroína Regina Duarte e dá-se lugar a uma irritação sem medida pela figura da vilã do mesmo folhetim. No entanto, não há lembranças dos últimos candidatos em quem votamos e muito menos dos projetos idealizados e prometidos por eles.
Pobre geração, empobrecida de cultura, livros e conhecimentos diversos, às margens do esquecimento do Estado, vítimas da própria sorte. Habitamos a terra da prosperidade, o País tropical abençoado por Deus e bonito por natureza como diz a canção, mas fica a pergunta... Quantos brasileiros podem entoar a mesma canção e vivenciá-la na prática cotidiana?

1 comentário:

  1. Parto sempre da ideia de que tudo o que produzimos é cultura, mas de acordo com a opinião, professor. Excelente texto inclusive, parabéns!

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